A luz de Maradona

Minha história com o futebol se encerrou. Era uma ligação de torcedor, apenas. Sempre fui um jogador mediano, ou menos que isso. O encerramento se deu depois de um grande cansaço de ver erros sendo cometidos influenciando resultados e campeonatos. Odiava ver acontecendo com o time que escolhi, o Botafogo, mas não ficava contente de ver ocorrer com qualquer outro clube. Contribuiu também para meu afastamento que esse microcosmo fosse (e seja) tão reacionário: machista, misógino, homofóbico, xenofóbico e que sempre teça loas ao capitalismo – com suas “meritocracias” e seus desejos de ver o outro (clube) destruído para crescer sobre suas cinzas.

Há uma rivalidade um pouco diferente, mais “saudável” que vemos bastante nas escolas de samba (embora também haja problemas por ali). Quantas vezes escolas que perderam tudo em incêndios ou enchentes foram socorridas pelas “coirmãs”? E os agradáveis hábitos entre sambistas de frequentarem as quadras uns dos outros e dos amadrinhamentos entre as escolas? Não me lembro de ter visto um torcedor da Beija-Flor com o dedo na cara de um mangueirense gritando: “Vice! Otário! Chupa! Roubado é mais gostoso!” Ou um portelense do alto de seus vinte e dois títulos rindo do rebaixamento do Império Serrano, irmão de samba e de bairro. Quando em 2017 a Portela foi campeã do Grupo Especial e o Império campeão do Grupo de Acesso, faltou chão em Madureira e sobrou alegria. Aliás, o erro cometido por um jurado na apuração que tirou o título da Mocidade foi merecidamente corrigido meses depois. Como a Portela não teve culpa do erro, ambas foram declaradas campeãs. Ah se isso acontece no futebol de hoje (já tivemos casos no passado)!


Mas esse texto não é sobre meu desentendimento com o futebol. Quero, na verdade, recuperar boas passagens desse esporte em minha vida. Preciso falar de Maradona. Das lembranças boas que ele despertou e do entrelaçamento com outros craques e times em minha memória. Começando pela Copa do Mundo de 1982, a primeira que assisti e lembro, já que em 1978 tinha apenas quatro anos. Naquela copa, fui com minha mãe ao Gigante, pequena loja de departamentos de São João de Meriti. Lá comprei uma camisa da seleção, quando ainda valia a pena usá-la, e pedi para que costurassem atrás o número oito. O número de Sócrates, o capitão da seleção e uma espécie de irmão brasileiro de Maradona. Dois craques da bola e da vida e humanos, demasiadamente, humanos. Maradona, inclusive, foi expulso no jogo contra o Brasil na Copa da Espanha. Quem comete erros, acerta, erra de novo e procura pela vida em espaços e substâncias tantas quanto necessárias sabe o que é ser humano. E ele sabia demais! A copa de 82 foi a melhor que vi. A nossa seleção foi a melhor que vi. A sensação daquela década que estava apenas há dois anos entre nós foi uma das melhores que vivi.


Aí veio a Copa do Mundo de 1986. Lembro que naquela época falávamos do futuro nos baseando nas copas: “Na Copa de 1990 terei dezesseis anos, na de 1994 terei vinte…”, e assim o tempo voava. Sei que na Copa do México eu tinha doze anos. E vi, assim como muitos, Dios metendo a mão na bola disfarçado de Maradona e empurrando a pelota para dentro da rede do goleiro inglês. E como ele viu que era bom, resolveu voltar ao campo, dessa vez com o encantamento nas pernas. Baixando no corpo de Diego, seu anjo caído, Dios saiu com a bola dominada desde o lado argentino, driblou seis ingleses, incluíndo o goleiro e marcou o gol das copas. Não podia ser! Logo contra os ingleses que em seu hino pedem “God save the queen” e, ainda, que os inimigos de sua majestade caiam sob seus pés. Que ironia, Deus e Diego se juntaram contra um adversário que traz em sua bandeira uma cruz (foram mexer com o filho dele…). E de 1986 até hoje, acho que nenhuma seleção mereceu tanto ganhar uma copa quanto a Argentina naquele ano.


Eu vesti quatro camisas de times futebol desde que passei a me interessar pelo jogo: Botafogo por conta do encanto que clube, cores e símbolo exerciam sobre mim; América, time do meu pai e de meu avô paterno; Grêmio porque era o time que meu avô adotou ao morar no Rio Grande do Sul e Napoli. Por que Napoli? Porque durante um tempo, lá para 1987, 1988, vi jogos do campeonato italiano e me encantei novamente com Maradona levando esse time, até então esquecido por quase todos, ao título italiano. “Dieguito, Dio mio!” – gritavam os napolitanos para Maradona. O que Ele e seus companheiros fizeram pelos gramados italianos me contagiou. E qual era a cor da camisa do Napoli? Azul celeste.


Maradona nasceu num bairro pobre e passou toda sua vida emprestando sua voz para que as desigualdades desse mundo de meu Deus fossem suprimidas. Talvez esse mesmo Deus, depois de usar a mão e as pernas de Diego e vesti-lo com seu manto azul-celeste tenha se apossado de sua garganta. E lembrado dos sofrimentos de um filho que torturado e morto, andou por aqui. E o que esperar de um homem tão possuído pelo divino, senão experimentar a condição humana com tanta avidez? Deus experimentou a humanidade através de Maradona. Sem ele, Ele talvez nem existisse.


Adeus, Maradona!

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Tempo

A chuva fina caía lá fora deixando o sábado preguiçoso. A pedalada programada para o dia derrapou. Oito horas. Embora funcionasse, o relógio tinha ares de parado. Levantar ou ler sob o cobertor? Olhou a pilha de livros no criado mudo. Tentaria cumprir parte da promessa de início de ano: ler pelo menos um clássico da literatura por bimestre. Julho corria solto e até agora, nada. Bentinho, Macabéa, Riobaldo, Elisabeth Bennet, Gregor Samsa e Raskolnikóv aguardavam desde janeiro. A disputa pela atenção da leitora e pela primazia da escolha já não mais existia. Tomaram-na por volúvel e seguiam suas vidas desassossegadas, cada qual em suas próprias páginas. Seria preciso adaptar a promessa ou adiá-la mais uma vez. A visão dos livros sobrepostos foi decisiva para fechar questão: seguiria com a segunda opção.

As costas doíam, não poderia continuar deitada. Ergueu-se e girou as pernas para fora da cama tão lentamente quanto os ponteiros do relógio. Oito e cinco. Os pés se assustaram com o chão gelado. Após colocá-los em segurança na borracha fria do chinelo — ainda assim mais agradável que o sinteco gelado — espreguiçou e coçou agradavelmente o corpo com a ponta dos dedos. Levantou e foi ao banheiro com uma leve pressão na bexiga. Sentiu-se repelida pelo normalmente aconchegante e confortável assento sanitário almofadado. Estava gelado. Percalços de inverno. Deu a descarga, lavou rapidamente as mãos, enxugou-as na toalha e tocou o rosto quente com os dedos frios após o contato com a água congelante da torneira. Um choque que serviu para o despertar total.

Precisava decidir o que fazer no dia arrastado. Oito e oito. Só conseguiria pensar após um café. Foi à cozinha com os braços encolhidos sobre o peito para amenizar o frio. Colocou água pra ferver, pegou o pote de café, ajeitou coador e filtro de papel em cima da garrafa térmica e colocou três colheres de sopa de pó. Gostava da bebida forte e misturada ao leite. De repente se lembrou do café especial ganho de uma amiga. Ela e o marido tinham uma cafeteria. Numa das visitas ao local, elogiou o sabor e ganhou um pacote do produto cultivado no sul de Minas por familiares do casal. Pegou o café especial e devolveu o industrializado ao pote. A amiga lhe ensinou a extrair o melhor da bebida: prepará-la com água mineral ou filtrada e não deixar ferver, pois queimava o café. Trocou a água que já fumegava no fogão por outra de seu filtro de barro. Oito e dezoito. Despejou em sua caneca vermelha dois terços de leite e completou com a bebida recém preparada e três colheres rasas de açúcar.

O aroma do café tomou conta do ambiente agora levemente aquecido e fez o percurso nariz-cérebro, destravando memórias. O cheiro mexeu na configuração espaço-tempo e transformou a mulher em menina e sua casa na da avó paterna, mais de vinte anos atrás. Além do tradicional café moído na hora pela dona da casa, misturado ao leite para a neta, a garota comia um pedaço de pão cortado em quatro. Ela raspava o miolo amanteigado com os dentes e molhava o restante na bebida quente. Comia feliz aquela massaroca. Vó Dondinha — seu nome era Dora, Dondinha era uma variante de Dorinha criada pela criança — molhava no seu café com leite uma fatia de pão com manteiga e tudo. A menina fazia cara de nojo, não admitia que o salgado da manteiga e o doce da bebida se misturassem. Coisa de quem está descobrindo o paladar. A mulher ria e dizia para a neta que era assim que gostava e não via motivo para aquela cara. A resposta à Dondinha vinha em linguagem infantil:

— É úim!

De volta a sua casa. A lembrança passou, assim como o tempo. Oito e quarenta e cinco. A bebida havia esfriado. Ela se levantou, preparou uma nova, cortou um pão francês meio dormido, passou manteiga e dividiu em quatro pedaços. Sentou-se e com o rosto ainda molhado de lágrimas, mergulhou uma tira de pão e manteiga no café com leite e comeu, assim como vó Dondinha fazia até pouco tempo atrás. Ao morder a massa amolecida, sentiu um gosto de saudade insuportável.

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Bactéria filha da …

Róbson voltava do depósito de bebidas onde comprou suas mercadorias. Embora não pudesse vende-las no trem, já que a empresa que opera o transporte ferroviário proibiu a entrada de ambulantes, faria seu comércio onde conseguisse. Haveria culto noturno e ele venderia as bebidas por lá. Encontrou Jorge e Marcos bebendo e conversando numa birosca próximo de sua casa e parou para jogar conversa fora com os parças.

— Qual é! — cumprimentou. Os amigos responderam:

— Fala tu!

— E aí, leke! Qual é dessa mercadoria aí?

— Alguém tem que trabalhar nessa porra, né? ‘Cês ficam aí entornando, curtindo férias! Isso é pra quem pode.

— Ih, aí Marquinho. Tá de férias tu? — provocou Jorge.

— Porra nenhuma, aproveitando o sábado.

— Ué, é sábado pra mim também e eu tô aqui repondo a mercadoria pra ralar.

— Cuidado que o trem tá cheio de coronga, hein!

— Comprou álcool gel, parceiro? — Disse Marcos completando a zoação de Jorge.

— No trem não tá rolando de trabalhar e álcool só essa cerveja aí. Me dá um copo dessa gelada.

Jorge serviu um copo de cerveja ao camarada e seguiu a conversa.

— Mas falando sério, vírus do caralho esse!

Marcos concordou.

— É foda!

Róbson foi reticente.

— Acho que a galera tá exagerando.

Jorge se mostrou preocupado.

— Essa porra mata, me’rmão!

Seguiu-se uma pequena discussão entre Róbson e Marcos.

— Tão fazendo muita onda. Já tem até remédio pra isso, a tal da cloroquina.

— Acho que isso é fake news. Se fosse verdade, não tinha tanta gente doente no mundo.

— Fake news nada, o Bolsonaro tá recomendando.

— Isso é palhaçada, porra! O cara é um pirado.

— Respeita o presidente, muleke! — disse o rapaz rindo.

— Vai ficar batendo palma pro maluco dançar, Róbson? Sai dessa, rapá!

— Ih, alá! Té parece que não votou nele.

— Pior que votei, mas o cara só faz merda!

— Merda todo mundo faz, mas acho que ele tá jogando limpo — disse Róbson, encerrando o assunto e o copo de cerveja.

Á noite, como programado, Róbson levou seu isopor com refris e água para a frente da igreja. Além disso, uns salgados feitos pela mãe. Montou uma barraca. As vendas foram decepcionantes. O dinheiro dos fiéis estava quase todo reservado para o dízimo. Na saída do culto, o pastor cumprimentou Róbson apertando-lhe a mão.

— Boa noite, varão! Empreendendo, né! Muito bem, tem que levar o pão pra casa mesmo. Parabéns por não se deixar levar por essa história de isolamento. Deus vai proteger dessa gripe aqueles que trabalham e oram.

— É Deus na causa, pastor! Vai um salgado com refri?

— Ô, varão. Outro dia, hoje eu tô desprevenido. Fica com deus — disse o pastor indo em direção ao seu carro zero quilômetro.

— Se tá ruim pro pastor, imagina pra mim — pensou alto após o religioso se afastar.

Bateu uma fome e o rapaz se aliviou com um dos salgados que voltariam pra casa.

No início da semana, foi tentar vender as bebidas nos ônibus. Teve muita dificuldade. Poucos motoristas permitiram que entrasse nos veículos. Na sexta, sentia-se no bagaço. Acostumado ao trampo no trem, onde não voltava com mercadoria pra casa, agora ia e retornava com o isopor lotado. Ao chegar, notando o semblante abatido do filho, a mãe de Róbson foi acarinhá-lo.

— Tá cansado, meu filho?

— Tô cheio de dor de cabeça, dor no corpo. Não consigo esvaziar o isopor, a maioria dos motoristas não tá mais liberando a venda no ônibus. Quando consigo entrar, raramente vendo. O pessoal tá se borrando de medo desse “corongavírus”, bando de fresco. Querem que eu tenha álcool gel pra eles lavarem as mãos. Agora a senhora veja!

— Ih, tá uma coisa isso! Mas você tem que se cuidar. Será que não é dengue?

— Ah, de novo não! Já tive duas vezes, chega!

— Pode ser esse vírus aí, também. Vou fazer uma canja pra você. Toma um banho, uma novalgina e vai deitar lá no meu quarto. Quando tiver pronta eu aviso.
— Valeu, mãe.

Róbson deixou a mercadoria num canto da cozinha, tomou banho e se deitou. A mãe ofereceu o único quarto da casa, que ela dividia com duas filhas e dois netos. Róbson e o irmão Hudson dormiam na sala. O rapaz foi acordado pela mãe.

— Tá com febre, filho. A testa super quente. Vem comer a canja e tomar uma novalgina. Cuida da sua saúde.

Ele foi pra sala onde parte da família estava reunida. No total, eram quatro os filhos de dona Márcia, mãe de Róbson. Marcella, professora da rede pública de ensino, era a mais velha e jantava com os filhos enquanto assistia TV. Hudson e Marcelle, filhos do meio, não haviam chegado do trabalho ainda. Ele era segurança de um supermercado e ela, auxiliar de serviços gerais de uma empresa de terceirização de serviços. Estava lotada num hospital privado do subúrbio do Rio.

Ao chegar à sala, Marcella perguntou a Róbson o que ele sentia. O rapaz explicou.

— Isso pode ser coronavírus — disse a irmã.

— Tá falando merda, sua “mocoronga vírus”!

— O vírus da babaquice já nasceu com você né, idiota! Se passar coronavírus pra minha mãe e pro meus filhos eu te meto a porrada. Babaca!

— Deve ser dengue, sua trouxa e não essa porra dessa bactéria. E mesmo que seja é só uma gripe. Todo mundo aqui tá acostumado.

Nesse momento, o presidente brasileiro se pronunciava:

É essencial que a verdade e o equilíbrio prevaleçam entre nós. O vírus chegou. Está sendo enfrentado por nós e, brevemente passará.
Nossa vida tem que continuar, os empregos devem ser mantidos, o sustento das famílias deve ser preservado. Devemos sim voltar à normalidade.

— Bactéria é você e esse infeliz do seu presidente. Dois imbecis! — afirmou Marcella.
Róbson apontou os dedos em forma de arma para a irmã. Dona Márcia que chegava à sala com a canja do filho baixou as mãos dele e interveio na discussão.

— Chega os dois! Não quero ninguém desrespeitando ninguém aqui dentro. Toma sua canja que já te trago o remédio. Não quero mais ouvir briga, entenderam?
Os filhos aceitaram a resolução materna, mas não sem antes cochicharem um pro outro:

— É vírus, idiota!

— Não enche, professorinha!

No dia seguinte, as dores e a febre não cederam. A garganta incomodava e a tosse fazia a cabeça de Róbson explodir. Foi à UPA e lá recebeu o diagnóstico de gripe e a orientação para que repousasse, ingerisse líquidos e fizesse uso de um antigripal, um analgésico para a dor e um xarope para a tosse. Não comprou nada, para ele, gripe se curava sozinha. No máximo uma novalgina para a dor. Em casa iria esfregar o diagnóstico na cara da irmã, mas teve um ataque de tosse ao começar a falar e deixou para lá. A mãe mandou que descansasse. Antes de ir para o quarto disse quase sem conseguir articular a palavra:

— É gripe.

Passou o dia deitado. Tossia muito, não conseguia descansar.

Uma nova e terrível noite, mal pregou os olhos. As dores e a febre não davam trégua. Levantar-se do colchonete em que dormia na sala tornava-se uma dificuldade — a cama materna era um luxo diurno. A mãe pegou a receita que o filho recebeu na UPA. Iria comprar os remédios. Róbson quis protestar, mas outro ataque de tosse foi suficiente para convencê-lo. Tomou antigripal, xarope, analgésico, canja, mel, água e… nada surtia efeito. No quarto dia, sentiu tonturas e um extremo cansaço ao sair da sala para o quarto da mãe. Faltava-lhe ar. Pediu à mãe que abrisse a janela que já estava aberta. Dona Márcia estava preocupada com o filho.

— Róbson, você não tá melhorando. E se for mesmo esse tal de coronavírus? Não é melhor voltar lá na UPA?

O rapaz quase se afoga por conta da dificuldade respiratória e também pela contrariedade, não acreditava na pandemia.

— Fica calmo, meu filho. Esquece o coronavírus, mas pode ser pneumonia, tuberculose, sei lá! É melhor voltar na UPA pra fazer exames. Eu vou com você, tá bem?
Róbson fez um sinal de positivo em mais um ataque de tosse. A mãe pegou uma roupa e iria se trocar no banheiro quando foi abordada pela filha, Marcella. A professora e os filhos estavam em casa, já que as aulas estavam suspensas.

— Vai aonde, mãe?

— Vou com seu irmão até a UPA, ele não melhora. Tô preocupada.

— Esse garoto tá com coronavírus, mãe. Ele é teimoso e vai infectar todo mundo aqui. Não viu no jornal que a coisa é pior pra idoso? Fica em casa e deixa que eu levo ele na UPA.

— Ah, filha… você e seu irmão vivem se atracando, deixa que eu vou. Ele não tá podendo se aborrecer.

— Pode deixar, não vou brigar com ele, mas a senhora fica em casa. Olha os meninos, por favor.

Marcella se arrumou e foi ao quarto com a mãe buscar o irmão.

— Filho, a Marcella vai com você. Tô terminando de fazer a comida.
Róbson se mostrou contrariado e foi logo cortado pela irmã.

— Olha só, Róbson, sem palhaçada. Isso aí pode ser grave e não quero que minha mãe seja infectada, ok? Então bora levantar que eu vou com você e acabou.

— Vai, filho. Sua irmã só tá querendo ajudar.

Sem condições de discutir, o rapaz se deu por vencido. O caminho até a UPA foi difícil. Um cansaço que não sentia há muito tempo, os pulmões falhando e a companhia da irmã. Um inferno. Chegando à unidade de saúde, Marcella mandou o irmão se sentar e foi procurar algum agente de saúde. Interpelou o primeiro que encontrou identificado por um colete.

— Bom dia!

— Bom dia!

— Meu irmão está passando muito mal e tô achando que é coronavírus.

— Olha só, se toda pessoa gripada estivesse mesmo com coronavírus a gente ia ter o maior número de casos do mundo.

Marcella não gostou da ironia e respondeu à altura.

— Acho que você não entendeu. Meu irmão é um idiota. Acredita em todas as fake news que recebe e acha que coronavírus é uma gripe. Mas eu já vi aquele moleque gripado e o que ele tem agora é muito diferente. Eu praticamente precisei carregar ele até aqui. Tá botando os bofes pra fora e com falta de ar. Preciso saber se é coronavírus porque ele pode passar isso pra todo mundo lá em casa, inclusive minha mãe que é idosa.

— Onde está seu irmão? — perguntou o agente de saúde.

— Sentado ali — Marcella apontou para as cadeiras da recepção quase lotada.

O agente perguntou o nome do paciente e foi com a moça até ele.

— Róbson: meu nome é Vítor, sou agente de saúde aqui da UPA. O que você está sentindo?

Tentando encontrar ar nos pulmões para responder, só conseguiu tossir. O agente decidiu mudar a abordagem e pediu que a irmã respondesse em seu lugar.

— Além da tosse, o que mais ele está sentindo?

— Como eu disse, falta de ar, cansaço, febre e dor no corpo.

— Há quanto tempo?

— Desde sexta.

— Vou agendar o atendimento pra ele pedindo urgência. Tá com algum documento dele aí?

— Róbson, me dá algum documento seu — pediu a irmã. Pegou o RG dele e foi com o agente até uma atendente para o agendamento da consulta.

O médico fez os exames possíveis e encaminhou o paciente para um hospital, já que na UPA não havia condições de mantê-lo. Não havia um veículo a disposição da unidade, portanto, Marcella precisou correr atrás de um carro para levar o irmão até um hospital com mais recursos. Um amigo da família que trabalhava como motorista de aplicativo foi acionado. Róbson chegou passando muito mal, quase desacordado e foi internado na UTI. A crise tornou-se severa. Foi posto num aparelho respiratório e colocado em coma induzido.

— Bom dia Róbson! Meu nome é Regina, eu sou enfermeira aqui do hospital onde você foi internado há oito dias com coronavírus.

Meio tonto e desorientado, tentou falar e foi impedido pela enfermeira.

— Evita falar. Você ainda está debilitado. Ficou no respirador vários dias e está tomando soro e medicamentos. Descansa.

Róbson insistiu em falar e balbuciou com um fio de voz.

— Minha mãe.

— Sua família está em casa em quarentena. Estamos informando sobre o seu quadro por telefone.

O jovem lembrou do perrengue pelo qual havia passado até ali, da descrença sobre os sintomas do vírus, comparado por ele a uma gripe e, principalmente, da conversa com a irmã dias atrás.

— Bactéria filha da puta! — sussurrou.

— Na verdade é um vírus — corrigiu a enfermeira.

Mas Róbson não se referia ao coronavírus.

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Clarice

Clarice acordou só. Vivia sozinha por escolha própria. Há dias sente esse aperto no peito causando sufocação seguida de uma tristeza aguda. Sensação que se repete desde a morte do neto por uma doença que, a princípio, deveria causar mais preocupação a ela, uma idosa de quase oitenta anos. Jamais imaginou que o distanciamento fosse se perpetuar. Saudades daquele menino que chegou há cinco anos em sua vida. Não era para acontecer dessa maneira. Que ela partisse e deixasse saudades no seu garotinho, tudo bem. Era o ciclo da vida. Mas não estava preparada para continuar por aqui sem ele. O grude que juntava avó e neto foi dissolvido, nunca mais daria liga.

Um desânimo demorou décadas para chegar e veio avassalador, sem dó. Hoje, ainda mais doído. Sábados eram os seus dias. Não é que só visse o neto nesse dia da semana, mas já era um costume que ele fosse para sua casa de manhã e só saísse de lá no domingo. Qualquer coisa diferente disso causava uma estranheza. O próprio menino, se levado a algum outro lugar, por mais divertido que fosse, reclamava. Queria estar na casa da “vó Calice”. Lá ganhava beijos com cheiro bom (de alfazema), tomava café com bolo, passeava na pracinha chupando picolé… transformava uma octogenária em adolescente que corria pela casa até cansar de tantas brincadeiras diferentes. Clarice queria brincar, mas seu companheiro não estava lá. Era acometida por um cansaço devastador todos os dias ao abrir os olhos. Vinha e tomava conta dela, que se deixava dominar. Bem diferente daquela sensação física após o pique com o neto. Com o menino, morria também a adolescente de todo sábado.

Sentada na cama, respirava sem vontade, repassando mentalmente os acontecimentos. A filha foi a primeira a apresentar os sintomas causados pelo coronavírus. Pelo telefone comunicou-se com a mãe. Falou sobre o sofrimento ao isolar-se no quarto. Era preciso evitar que o vírus contagiasse a família. Os sintomas foram brandos, dor de cabeça, cansaço e alguma dificuldade em respirar. Cinco dias depois soube que o neto havia sido internado. Sentiu a impotência da distância, mas acalmou a filha. Sua experiência na área da saúde — era enfermeira aposentada — foi determinante para isso. Disse que o menino era jovem, saudável e voltaria logo pra casa. Dois dias depois, recebeu a notícia que não imaginou ouvir. Sua previsão não se cumpriria, o neto não voltaria para casa. Nunca mais. O genro ligou do banheiro para que as paredes não o traíssem. Estava o mais longe possível da mulher isolada. Soluçava enquanto relatava a morte do filho. Precisava de conselho. Como avisaria à esposa? Clarice precisou agir como uma daquelas pessoas que joga o próprio corpo sobre uma granada sem o pino minimizando, assim, os efeitos da explosão nos que estão em volta. Acalentou como pôde o homem que acabava de perder o filho e o convenceu a entrar no quarto. O medo de ser contaminado deveria ser suspenso nesse momento. A esposa precisaria ser amparada. Ligaria um pouco antes para estar junto como podia. Ligou, disse à filha que o genro precisaria entrar no quarto. Ao ser questionada, pediu calma. O homem entrou e ela ouviu o que era dito. Sentiu nos ossos o sofrimento desesperado do outro lado da linha. O celular fugiu de suas mãos e ela precisou da parede para continuar de pé.

Caiu num choro intenso. Levantou-se da cama. A pandemia continuava seu curso lá fora. Mais de seiscentas mortes diárias no país. Quase dez mil desde março até agora. Uma delas com nome e rosto, sem cpf ainda, ficaria na memória de Clarice enquanto estivesse por aqui. Talvez por pouco tempo, ela intuía. Mas que fosse o suficiente para o reencontro com o que restou da família. A Covid-19 levou-lhe o neto, precisava saber o quanto a tristeza havia levado de sua filha. Respirou com dificuldade, mas determinada a manter-se viva por enquanto. Foi ao banheiro e lavou o rosto. Um pouco mais velha que ontem, muito mais velha do que há uma semana. Hoje tomará café com bolo sozinha sem esperança de que isso vá mudar.

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Tropeçando em livros

Vivi numa casa sem livros. Minha mãe e meu pai são de um período em que as crianças pobres estudavam pouco ou nada. Cedo precisavam ajudar nas despesas ou nas tarefas domésticas. Cresceram sem contato com livros e literatura, considerados supérfluos por suas famílias. Acostumaram-se a isso.

Eu, fruto de outra geração, privilegiada em relação a pai e mãe, não fui atingido por esse desapego. Passando por uma banca de jornal com minha mãe, devo ter tocado em algo que me inoculou o germe da leitura. As capas das revistas da Turma da Mônica atraíram minha atenção. A príncipio, foi uma atração visual. As imagens dos personagens me encantaram. Mas à medida em que as histórias me eram contadas – juntamente com a visão dos quadrinhos – fui sentindo uma necessidade crescente de decifrar aqueles signos que não compreendia. Precisava ter autonomia literária.

Não aprendi a ler muito cedo. Tive uma experiência ágrafa e, portanto, traumática, numa escola chamada São João Batista, que não era confessional, embora tenha nome de santo católico e, em 1981, com sete anos, aprendi a ler num colégio de bairro chamado Centro Educacional Thereza Pires. Tirei o meu brevê literário.

Com o tempo, os quadrinhos começaram a não me bastar. Precisava de mais. Um dia, fuçando nos armários de casa encontrei antigos livros didáticos de minha irmã, seis anos mais velha. Neles encontrei contos, crônicas e trechos de romances. Um delicioso texto de Paulo Mendes Campos sobre a diferença entre chatear e encher ficou na minha cabeça até hoje.

Lidos os textos didáticos, precisava de mais. Até então, os únicos objetos que demandava à minha família eram as revistas em quadrinhos, jogos de botão de mesa e os bonecos playmobil. Mas numa das visitas à papelaria da minha cidade – São João de Meriti – que também era loja de brinquedos, descobri uma seção que vendia livros. Meus olhos brilharam. Ali descobri a série Vagalume: Um cadáver ouve rádio, O escaravelho do diabo, A serra dos dois meninos, Spharion… os vários títulos da coleção me iluminaram por bastante tempo.

Cresci. E crescer significava experimentar novas leituras. Em paralelo àquelas pedidas na escola, os cânones de nossa literatura, aproveitava a rebarba dos livros deixados pela casa por minha irmã. Lembro de ter lido um autor como Bukowski aos 13 anos, com os hormônios a mil.

Hoje, bibliotecário, tropeço em livros no trabalho e também em casa, junto com minha companheira e filha em nossas estantes. Há quem use o termo bibliofilia para nomear aqueles que amam livros. Não acho que me enquadre nessa categoria. Embora admita que preciso lê-los e tê-los, talvez sejam apenas os pesos de que necessito para não lançar-me fisicamente pela janela, embora o faça metaforicamente e siga planando com o auxílio de suas páginas abertas.

(Crônica baseada na música “Livros”, de Caetano Veloso).

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Menino do Rio

O “surfista” ia à praia todos os finais de semana. Surfista era o apelido de Jonas. Gostava de ser reconhecido por sua paixão. O corpo levemente sarado, o cabelo descolorido formando um contraste com a pele negra, o andar cheio de gingado… o conjunto causava uma sensação de derretimento nos corpos femininos (e em alguns masculinos também) de várias idades. O rapaz era responsável por muitos sonhos nas redondezas, mas algumas pessoas preferiam exteriorizar o que sentiam. Aos comentários do tipo: “Que delícia, hein!” ou “Que filé!”, muito ouvido naquela década de noventa, Jonas reagia com sorrisos. Não era dado a humildade, modéstia ou timidez. E se o desejo de quem pronunciava as frases elogiosas mexesse com o desejo do surfista: “formou”, como ele dizia. Mas assim como as ondas do mar desaparecem na areia, que não esperassem dele um relacionamento duradouro. Compromisso? Não, só os flertes “com geral”.

Jonas queria continuar equilibrando-se pela vida, receber o gostoso calor do Rio em seu corpo e sentir a adrenalina com as manobras radicais. Dona Consuelo, sua mãe, além de Gérson e Jéssica, respectivamente irmão mais novo e irmã mais velha, não compartilhavam da paixão pelo surfe. Gérson cuidava dos pertences do irmão enquanto ele surfava, mas achava que Jonas corria um risco desnecessário; Jéssica via o irmão do meio como um pavão irresponsável que não pensava em ninguém, só nele mesmo. Assim que soube da prática do filho, dona Consuelo teve um pico de pressão alta. Foi socorrida pelos vizinhos.

A família vivia com poucos recursos, mas Consuelo desdobrava-se. Os filhos não passavam fome e estudar era uma exigência da mãe batalhadora. O marido sumiu no mundo há dez anos com outra a quem também engravidara. Com o tempo, aceitou que os filhos trabalhassem, desde que isso não atrapalhasse seus estudos. Jonas cursava o terceiro ano do segundo grau, Gérson o primeiro e Jéssica já era professora após terminar o curso normal. Os rapazes vendiam amendoim na praia todo final de semana. Ajudavam em casa e guardavam um pouco para eles mesmos. O surfista até juntou dinheiro para uma tatuagem no braço. A mãe achou o desenho feio, um dragão-de-Komodo. O rapaz curtiu o animal imponente.

Fim de semana. Jonas e Gérson acordaram cedo, pegaram os saquinhos de amendoim torrados na noite anterior e foram a pé até a estação ferroviária. Embarcaram. Quando o trem começou a se mover, o surfista entrou em cena. Deixou a mercadoria, carteira e camisa com o irmão e junto com seus colegas de “esporte radical” foi surfar no teto do vagão que começava a tomar velocidade. Manobrava com maestria para driblar os cabos de alta tensão. Ali em cima ele era maior que Kelly Slater, o campeão mundial de surfe. Sentiu um arrepio e foi atravessado por uma onda de calor. Em casa, dona Consuelo rezava para que Deus protegesse os filhos.

(Conto baseado na música “Menino do Rio”, de Caetano Veloso).

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A ruína ronda o rei 

Era mais um dia desconfortável na corte. O calendário marcava março. Desde o primeiro mês do novo ano, as mortes iam a acumular-se, com um intervalo de poucos dias entre uma e outra, sem que um responsável fosse apresentado. Tudo começou com o passamento de Leonor. Ela cuidava das filhas de Dom João VI. Pereceu tão silenciosa quanto misteriosamente, já que o médico não conseguiu determinar a causa mortis. Quatro dias depois, Afonso, professor de equitação dos príncipes desde a chegada da família real ao Brasil, foi encontrado degolado numa poça de sangue. Como Miguel apreciava cavalgar em sua companhia, permaneceu no palácio mais como uma espécie de aio de luxo do príncipe mais novo e também como responsável pelo estábulo.  

As mortes aconteceram em sucessão: cozinheira, aia, jardineiro…  eram catorze até aquele momento. Aconteciam sem uma causa determinada ou o cadáver era encontrado praticamente a boiar em sangue. Dom João VI seguia  atormentado, como se não bastassem as pressões para seu retorno a Portugal sob o risco de perder o trono português, caso sua residência permanecesse no Brasil. Para que os assassinatos fossem resolvidos o mais rapidamente possível, Dom João exigia de Paulo Fernandes Viana, intendente-geral de Polícia da Corte, relatórios diários e sua presença constante no Paço. Afinal, o homem tinha sob suas ordens a Guarda Real de Polícia, além de cuidar da segurança do monarca. Naquela manhã, como de costume, Sua Majestade aguardava Viana para, de preferência, obter boas notícias. 

— Vossa majestade! — disse o intendente após curvar-se.

— Sem rapapés, senhor Fernandes Viana! Diga-me, temos o assassino?

— Ainda não, vossa alteza.

— Sem pompas, homem! Dá-me apenas um nome para findar a tormenta que paira sob a coroa e vá aos diabos com os salamaleques!

— Compreendo sua preocupação, majestade. Determinei a coleta dos depoimentos. Meus homens da Guarda Real estão a fazer o possível para desvendar os crimes. Quem os cometeu tomou cuidado para não deixar pistas aparentes, mas tenho certeza de que existem e brevemente saltarão às nossas vistas. E então, teremos o criminoso ou os criminosos em nossas mãos.

— Como assim, criminosos, homem!? Quer dizer que descobristes ser mais de um?

— Ainda não podemos afirmar se os crimes foram cometidos por uma pessoa ou várias delas, majestade.

— Ai, homem! Tantas incertezas me fazem crer naqueles que alertam-me sobre a tua competência perdida.

— Perdão, majestade, mas o caso não prima pela simplicidade.

— Mas o tempo passa e não mostras-me sequer uma pista! Tais mortes teriam sido causadas por uma entidade sobrenatural? Os que não morrem de susto são degolados pela mão materializada da criatura, é isso? Dá-me um culpado, homem, e de carne e osso! E se não o tem, queda-te a procurá-lo. Ou achas, por um acaso, que ele está cá nesta sala?

— Certamente que não, majestade, com sua licença. 

Dom João sempre confiara cegamente no homem a quem encarregou a Intendência Geral de Polícia desde a chegada da corte ao Rio de Janeiro. Lá se iam quase treze anos. Mas os misteriosos assassinatos sem assassinos devastavam a corte e minavam a fé da realeza no até então prestigiado intendente. E não faltavam aqueles a inundar os ouvidos do rei com rios de reclamações sobre a postura de Ferreira Viana à frente do caso. Principalmente Dom Pedro e seu onipresente amigo Chalaça. E se, de início, Sua majestade fazia ouvidos moucos, o desenrolar dos acontecimentos fortalecia a opinião contrária ao intendente. 

Paulo Ferreira Viana saiu da reunião após sentir-se naufragar de seu cargo. Foi até a dependência preparada para ser seu escritório no palácio. Despachava de lá enquanto os crimes não eram resolvidos. Chamou um integrante da guarda palaciana e incumbiu-lhe uma missão: que fosse até a companhia da Guarda Real no Campo de Santana e só retornasse acompanhado do primeiro comandante, o coronel José Maria Rebelo. O intendente estava furioso e cobraria explicações de seu subordinado imediato. Viana sentia que estava a perder a confiança do rei e precisava solucionar os assassinatos antes de uma desonrosa dispensa de suas funções. 

O guarda designado para encontrar o comandante da Guarda Real dirigiu-se à sede da instituição no Campo de Santana. Solicitou audiência com o coronel José Maria Rebelo, mas só foi recebido após quase uma hora, mesmo depois de informar o motivo da missão. Ao saber que o guarda havia sido enviado pelo intendente, Rebelo de maneira proposital deixou que aguardasse. Não tinha pressa em atender qualquer ordem daquele a quem considerava indigno do cargo. Cria-se um injustiçado e mais preparado para a Intendência Geral de Polícia. Finalmente resolveu receber o guarda que suava dentro de seu uniforme, menos pelo calor veranil que pelo receio de encarar o conhecido mau humor do comandante. 

— Por que sou incomodado logo de manhã, soldado?

— Trago mensagem do intendente, meu comandante.

— E qual é a mensagem, homem?

— O intendente pede seu comparecimento imediato ao Paço de São Cristóvão, senhor — disse o soldado.

— E tu demoras quase uma hora para me passar esse recado, infeliz! Não sabes o significado de imediato? Talvez um dia no cárcere devolva-te a noção de tempo.

— Mas senhor…

— Cale-se! — interrompeu, ao ver o soldado engolir em seco e dar-lhe  uma ordem gritada. — Mande que preparem-me a carruagem!

O guarda saiu em disparada para atender à solicitação. O chefe da Guarda Real de Polícia levantou-se contrariado por ter de atender ao chamado de seu, ainda, superior hierárquico. Em meia hora chegava ao palácio. 

— Senhor intendente — cumprimentou.

— Entre e sente-se, comandante Rebelo. Vou direto ao assunto. Dom João me tem cobrado uma solução para os crimes que acometem a corte, no entanto, sinto-me à frente de uma legião de incompetentes. Catorze mortos e nenhum culpado. Por acaso a guarda é composta por cegos e surdos?

— Entendo sua frustração, intendente. Garanto ser também a minha. As investigações estão em curso, mas não lidamos com amadores.

— Parece que nós somos os amadores, homem! Sua majestade está impaciente e minha cabeça já está a prêmio. E um novo intendente pode vir acompanhado de um novo comandante para a Guarda Real, estás a entender-me?

— Perfeitamente, senhor. A partir de hoje comandarei pessoalmente as rondas da Guarda Real.

— Faças isso e mantenha-me informado. Estás dispensado.

— Com sua licença, intendente — despediu-se Rebelo. 

O comandante da Guarda tinha motivos reais para acreditar que seria alçado ao posto do superior hierárquico caso aquele não obtivesse sucesso na investigação. Gozava da simpatia de um influente membro da Casa de Bragança. Mas precisava manter as aparências e faria a combinada ronda. 

Alta madrugada. Batidas na porta. O intendente acorda sobressaltado. O que estaria a acontecer para que o incomodassem a essa hora? Novas batidas. Acalmou a esposa, levantou-se, acendeu a vela localizada no criado-mudo, desceu as escadas, parou em frente à porta a perguntar quem era. 

— Soldado Antônio Menezes da Guarda Real, senhor. 

As notícias não podiam ser boas. Esperava apenas que a vítima não fosse da Casa Real. Seu desejo foi atendido, o novo alvo era integrante da guarda, o soldado Paulo Ferreira 

Ao chegar ao Paço, foi direto para a sala destinada a ele durante a crise causada pelas mortes. Fernandes Viana entrou e pode escutar o final da conversa entre o rei e o príncipe: “… é o melhor a se fazer, meu pai. 

Ao perceber a entrada do intendente, Pedro pediu licença a Dom João,  e o deixou a sós com o funcionário. Foi cumprimentado pelo príncipe com um meneio de cabeça e devolveu a mesura. Dirigiu-se ao rei. 

— Vossa majestade.

— Meu caro Fernandes Viana, sente-se — ambos sentaram-se frente a frente, separados pela mesa. — Considero-te um amigo. Serviste à coroa até aqui com muita dedicação e eficiência. Saibas que lhe sou muito grato por isso.  Estiveste a meu lado desde a partida de Portugal. Sofremos juntos as intempéries e as enfermidades na travessia do Atlântico. Mas quando vidas são perdidas pela ação humana, é preciso que um rei tome providências para que seus súditos entendam a diferença entre um monarca designado por Deus e um homem comum.
Nesse momento, meu caro, preciso escolher entre manter um leal amigo e protetor ou afastá-lo para preservar sua biografia e a vida dos que integram a corte, decido-me pela segunda opção. Sou-te muito grato por tudo e não vou desamparar-te. Podes escolher outro cargo no Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Guerra ou em qualquer outro.

— Compreendo a situação e agradeço suas reconfortantes palavras, majestade. Quanto a um novo cargo, declino respeitosa e humildemente de seu oferecimento. Há doze anos sirvo à coroa com dedicação e lealdade, creio que mereço um período sabático até decidir por outra ocupação. Talvez a docência. Gostaria, no entanto, de pedir-lhe um último favor, se é que não abuso da boa vontade de vossa majestade.

— Digas, homem! Qual é o teu desejo?

— Permita-me ter acesso ao local do último crime, assim como à vítima?

— Ora, mas é claro! Peça a um guarda que o acompanhe e não vá embora sem te despedires de mim. 

Ao sair da conferência com o rei dirigir-se ao local do crime, ouviu parte de uma conversação numa das outras salas do palácio. Os homens falavam e riam. Eram as vozes do príncipe Pedro e do amigo Chalaça. Entendeu um único trecho: “… ele será bem recompensado”. Prosseguiu no caminho até o corpo da vítima. Jazia entre árvores num bosque afastado do prédio real. Reconheceu o morto. Era o soldado que mandou à companhia da Guarda Real, no dia anterior, em busca do comandante Rebelo. Teve a cabeça quase separada do corpo, tamanha a violência do corte. Solicitou informações sobre o ataque. Não se diferenciava dos outros em que os corpos foram encontrados em poças de sangue. Sem testemunhas. Ninguém viu ou ouviu nada. Procurou pistas e decidiu partir, sem se despedir de Dom João. 

Quase dois meses depois de encontrada a última vítima, o soldado, os assassinatos pareciam ter sido interrompidos. Desde o início, os intervalos entre as mortes nunca fora maior que cinco dias. O ex-intendente decidira começar uma investigação paralela. Possuía muitos contatos depois de tantos anos à frente da Intendência. Conseguiu os últimos relatórios redigidos pelo novo ocupante do cargo graças às boas relações mantidas com seus subordinados. Não gozava da intimidade de Antônio Luís Pereira da Cunha, o novo intendente. Foi com certa surpresa que recebeu a não indicação para a função de José Maria Rebelo. Este, inclusive, partira de volta a Portugal na comitiva que levou Dom João de volta a terras lusitanas. 

Numa manhã de maio, a investigação de Fernandes Viana era interrompida com sua repentina morte. A esposa, por não conseguir acordá-lo, mandou que o médico da família fosse chamado. Ao examinar o corpo do paciente, não pode atestar o que havia vitimado um homem que gozava de perfeita saúde. Exames mais detalhados tampouco elucidaram a questão. 

Cinco anos depois, Dom João recebia os súditos em seu palácio na tradicional cerimônia do “beija-mão”, quando reconheceu alguém quem não via desde o retorno a Portugal. O rei manifestou sua surpresa, pois não havia sido comunicado da estada de tal figura em Lisboa. Reuniu-se com ela após a cerimônia para estar a par das novidades. No dia seguinte, ao recolher-se no Paço da Bempostao rei não mais se levantaria. Os médicos não puderam determinar a causa mortis. O filho mais velho de Dom João, que naquele momento atendia por Dom Pedro I, imperador do Brasil, foi contatado para assumir o trono deixado vago por seu pai, e tornou-se, então, Dom Pedro IV, rei de Portugal e Algarves. 

 

(Texto enviado para um concurso literário cujo tema era “Assassinatos na Corte”.)

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Coronapírus

Dois amigos conversavam numa pequena birosca. Um terceiro se junta ao grupo, que passa a discutir sobre o assunto do momento. A perspicácia do grupo e seus conhecimentos sobre o tema deixariam as autoridades de um certo país — vizinho à Bruzundanga — verde-oliva de inveja.

Amigo 01: — Qual é!
Amigo 02: — Fala tu!
Amigo 03: — E aí, leke! Tá indo pra onde? Chega mais!

Amigo 01: — Ninguém trabalha nessa porra, né? ‘Cês ficam aí entornando, curtindo férias! Isso é pra quem pode.
Amigo 02: — Ih, aí mané. Tá de férias tu?
Amigo 03: — Porra nenhuma, só aproveitando o sábado.

Amigo 01: — Ué, é sábado pra mim também e eu tô aqui voltando da ralação.
Amigo 02: — Cuidado pra não pegar o coronga, hein!
Amigo 03: — Comprou álcool gel, parceiro?

Amigo 01: — Álcool pra mim só se for cerveja. Me dá um copo dessa gelada aí, então!
Amigo 02 (servindo a cerveja): — Mas falando sério, bactéria do caralho essa, né!
Amigo 03: — É virus. Por isso que o nome é coronavírus, senão seria coronabactéria.

Amigo 02: — É a mesma porra, vírus, bactéria, micróbio…
Amigo 01: — Deixa de ser burro, micróbio é bicho que dá em machucado quando ele apodrece.
Amigo 02: — Ah, foda-se! O que interessa é que essa porra mata, me’rmão!
Amigo 01: — Tão fazendo muita onda. Já tem remédio pra isso, é “cloro alguma coisa”.
Amigo 03: — Não é água e sabão com álcool gel?

Amigo 01: — Isso é fake news. Se fosse assim, pouca gente pegava resfriado. Era só tomar banho e tava tranquilo.
Amigo 03: — Mas dizem que passa pelo ar.
Amigo 01: — Palhaçada, porra! Se passasse pelo ar todo mundo pegava. Geral não respira? E respira o quê? Coca-Cola? Não, né?!
Amigo 03: — Ar.
Amigo 01: — Pois é. Se passasse pelo ar a gente já tava com o vírus ou a bactéria, sei lá.
Amigo 02: — É a mesma porra, já falei. E não é que passa pelo ar, é que se alguém espirrar ou tossir na sua cara e você coçar, aí sim pega. Mas só se coçar com força, até sangrar. Basta não enfiar a unha.

Amigo 01: — Então, por isso que passa o tal remédio feito com cloro. Ele desinfeta a bagaça, seca o bicho. A merda é ficar com cheiro de cloro na cara.
Amigo 03: — Acho que é por isso que falam pra lavar com água e sabão, pra tirar o cheiro.
Amigo 02: — Pode crer!

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Ela dança

Chegou sozinha e olhou pro salão como se fosse a dona da festa. E todos olharam de volta esperando convite pra dançar com a moça feliz.

Ela se ria e rodava noite afora sem tomar conhecimento de ninguém. Aos convites dos homens que desejavam bailar, a moça sequer respondia, seguia dançando consigo mesma.

O desejo não correspondido foi se transformando em ódio. Os homens não suportavam a desfeita daquela que lhes negava o riscar conjunto do piso encerado e as mulheres irritavam-se com o descaso, resultado da atenção monopolizada pela moça bailarina. Ela, alheia a tudo o que não fosse música, não sentia os humores se alterando à sua volta.

Um ser já embriagado de fúria e álcool não aceitou continuar sendo ignorado; engoliu de uma vez a cachaça, mas o desaforo não lhe desceu a garganta. Segurou a dama pelo braço, fitou o rosto dela com ordem e luxúria no olhar e cuspiu perdigotos e as palavras: “Vai dançar comigo! Na primeira vez eu pedi com educação e você fingiu não escutar, agora vai ser na macheza, mesmo”.

A moça que via pela primeira vez alguém à sua frente respondeu: “Só danço com quem eu quero e hoje eu tô me querendo muito.” Ao responder ao canalha com desdém, se desvencilhou do brutamontes e continuou dançando em sua melhor companhia.

O bruto sentiu o baque, sacou a arma e atirou pra cima. A banda parou e a multidão correu, mas ela que era a própria música, continuou seu giro sem parar. O atirador vil que observava a cena sem acreditar, caiu de joelhos a chorar. Quando os seguranças chegaram ao salão se depararam com uma cena surpreendente, uma mulher grandiosa que ria com os quadris e as pernas e um homem diminuto que urrava encolhido no chão.

 

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Meus lugares

Sou filho de cidade dormitório. A primeira vez que acordei, foi em São João de Meriti. Município que é uma pequena faixa no mapa do estado do Rio de Janeiro. Em tamanho, só ganha de Nilópolis.

Algumas imagens me marcaram desde a infância. A primeira delas é assustadora. Afundava na piscina do Social Clube Meriti, a mais conhecida agremiação recreativa do município, e ao chegar no fundo, via pedaços de madeira afiados, perigosamente apontados para cima. Obviamente, é uma imagem criada em meu inconsciente que me passa alguma informação que até hoje não entendi. Outra lembrança, essa realmente vivida, é estar dentro de um carro, à noite, com meu pai e um amigo dele ao volante. Ao passar por uma ótica com o letreiro iluminado, onde a mascote, uma coruja, piscava para mim, tudo me pareceu enorme e lúdico numa cidade linda e gigantesca, coisa que só podia acontecer, em minha mente infantil.

Vivi em várias casas. Algumas me deixaram lembranças como a da Rua Cel. Henrique da Fonseca. Lá fiz amizades com várias crianças do prédio onde em 1982 corri chorando pelo pátio após a derrota da seleção brasileira na copa do mundo. Teve também a da Rua São Sebastião, em que vivi dos dez aos vinte e sete. A casa foi testemunha silenciosa de minhas paixões infantis e juvenis e de minha passagem da adolescência para a vida adulta. Lá transei pela primeira vez (e várias outras vezes).
À medida em que fui crescendo, a cidade inversamente ia diminuindo em minha avaliação. Nos anos noventa, as luzes já não continham nenhuma magia encantatória e o olhar da criança que brincava foi substituído pelo do jovem que desejava (nem sabia muito bem o quê).

São João ficou do tamanho de meu hedonismo. Seguia como mantra o que cantam os Titãs “diversão é solução, sim”. Hoje chego a me surpreender com as possibilidades fornecidas pela cidade à época. Mas em algum momento, elas se esgotaram. Antes disso, foi morando na casa da São Sebastião que reencontrei a mulher com quem hoje partilho minha vida e, muito provavelmente, ali é que concebemos nossa filha.

De outras casas apenas lembro pelo apelido que ganharam: casa dos marimbondos, onde os insetos fizeram seu ninho na árvore do quintal e viviam nos rondando; a casa do seu Albino, que ganhou o nome do dono e vizinho; a casa do Social, ao lado do clube.

Minhas casas sempre ficaram no centro de São João. Mas outros bairros fizeram parte de minha história. Em Engenheiro Belford fiz o ensino fundamental numa pequena escola chamada Centro Educacional Thereza Pires. Me apaixonei tantas vezes por lá, mas uma timidez patológica me impediu de concretizar qualquer uma delas. Observava as meninas e sofria calado, engasgado. São Matheus, bairro próximo a Belford, foi o local onde mais joguei pingue-pongue em minha vida. Uma mesa construída por um tio de um amigo era “frequentada” por diversos adolescentes e alguns adultos. E havia a Vila Tiradentes, onde eu e amigos descobrimos cerveja barata e gelada na incursão a casa de namoradas que moravam por lá.

Sair de São João foi uma consequência lógica do esgotamento das possibilidades culturais, recreativas, profissionais e, principalmente, afetivas. Era 2001, minha filha havia nascido e decidi me mudar para a cidade do Rio, onde a mãe dela morava. Aluguei um conjugado na Rua Gomes Freire onde passei seis meses intensos e vivi outras histórias e um outro município passou a competir com São João como meu lugar.

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