Afogamento

Vivia ancorado emocionalmente em meio a grandes turbulências até as cordas da sanidade se romperem. E foi largado aos quatro ventos, num mar calmo de pequenas satisfações à proa e medos paralisantes, de tempestades internas à popa. Se as vagas lhe cobriam, as boias, as odiadas boias, mantinham-no na superfície para respirar.

Nos momentos de calmaria, conduzia-se como um prático pelas baías conhecidas, sem acidentes. Mar revolto, transbordava. A maresia fazendo seus estragos.

Seus humores marítimos variavam, muitas vezes correntes quentes, algumas tantas correntes frias. E apenas seguia, bastando que os faróis lhe dissessem para onde. Rumava ao gosto das velas sem nem mesmo girar o leme; era o próprio inexistir na agulha enferrujada da bússola, no descolorido das cartas de navegação, no marulhar das conhecidas ondas.

O estalo do casco, o emborcamento e o naufrágio em água salobra. Na boca do redemoinho, chupado e cuspido com gosto para a superfície que mostrou sua carranca, esgar retorcido. Daí, ilhou-se.

Aterrado e inesperadamente catapultado, levantou voo. Aluou-se. Embarcou em sua nova nave, etérea e com outros brinquedos a apontar diferentes caminhos (verticais). Manteve o total descontrole dos manches. Atraiu-se pela órbita de um buraco negro, apaixonou-se pelo infinito. Tonteado pelo espiral da galáxia, foi tragado pela funérea ex-estrela. Rarefeito de ar em repetido naufrágio, acorda sob terror, enterrado, afogando-se em areia. E descobre-se perdido onde sempre esteve, nos destroços de seu próprio corpo.

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Sophia

Tinha hábitos notívagos. Costumava caminhar pela floresta na madrugada, quando dificilmente era incomodado. Conhecia a área como ninguém, árvores, arbustos, flores, ervas… sabia reconhecer até os buracos e tocas, seus construtores e habitantes. Assim como distinguia o soar da “voz” de cada animal.

Há anos vivia isolado na casa que ele mesmo construiu numa parte isolada da floresta. Talvez por isso e pelo fato de não ter percebido nenhuma movimentação estranha, tenha se surpreendido com o corpo caído entre as folhas secas de uma árvore centenária. Uma mulher. Os cabelos embranquecidos cobriam-lhe quase todo o rosto. A palidez do corpo transmitia certa morbidez. E embora não fosse possível enxergar as feições, veladas pela cabeleira, antevia-se sinais de anorexia.

Aproximou-se do corpo e baixou o lampião, que utilizava para movimentar-se à noite. Afastou os cabelos que impediam a visão do rosto da desafortunada e assustou-se de tal maneira que seu corpo foi jogado para trás. Não foi possível segurar um grito de horror. Aquele rosto! Não podia ser! Como aquele corpo que habitava por décadas o subterrâneo foi surgir ali? E como pode envelhecer se estava… morta! Não poderia haver dúvidas, ele esteve em seu funeral. Viu o caixão ser recolhido à cova. Permaneceu por horas junto ao túmulo. Que brincadeira tenebrosa era essa? Não podia ser a mesma pessoa.

Haveria alguma explicação racional. Tentaria tocar o fantasma que o assombrava para dissipá-lo como fumaça. Assim, ele e somente ele, continuaria a vagar como o único espectro pelo local – embora as carnes ainda preenchessem seus ossos e o sangue teimoso circulasse pelas artérias. Aproximou-se mais uma vez para certificar-se do engodo a que sua provável demência o havia submetido. Tocou o rosto gélido da mulher e sentiu-se lançado a um abismo profundo. Um calafrio percorreu todo o seu corpo. Foi como se sua mão houvesse cruzado um limiar proibido aos que ainda carregassem qualquer vestígio de vida.

Não esperava materialidade e tampouco que o contato transferisse toda ausência de calor do corpo inanimado para sua alma. Sufocou outro grito em sua garganta. O terror parecia vir de uma fonte muito distante dali. Retirou rapidamente a mão da face lívida e congelante. Foi necessário controle para não tombar mais uma vez e sob forte emoção, precisou de alguns minutos para olhar novamente o rosto tão conhecido e certificar-se de que, sim, era ela! Tal como seria com o passar dos anos, se viva estivesse. O rubor das faces já não existia, a carne dos lábios havia desidratado, os olhos, antes muito vivos estavam cerrados e encovados. Constatar qualquer sopro de vida naquele corpo seria tão inexplicável quanto descobrir uma imaterialidade fantasmagórica.

Precisava recuperar o ânimo, verificar, enfim, se a vida pulsava naquele corpo. Devagar, chegou perto para tomar o pulso de Soph… não! Não se permitiria nomeá-la. Isso seria ratificar uma loucura. Temeroso de encará-la e com movimentos receosos, pegou-lhe o braço. Sem pulso… o corpo frio como um… cadáver. Sentiu repulsa. Mas precisava conter-se. Aquele corpo precisava desaparecer, como um dia desapareceu Sophia. Sim, não podia mais esconder seu nome. Esse nome antigo que tentou lançar ao túmulo junto com o corpo morto da mulher que tão bem conheceu. Sua noiva… Sophia. Recusou-se por anos a lembrar do nome, embora não tenha havido um só dia em que a jovem e bela morta não fizesse parte de seus incontroláveis sonhos. Ainda nítido, embora a dona do semblante já não caminhasse por esse mundo há mais de três décadas.

Mas como explicar essa aparição tantos anos depois? É possível que seja vítima de uma alucinação causada pela dor da ausência? Aos desagradáveis encontros no campo dos sonhos, tentava escapar evitando o sono. No entanto, mente e corpo tinham seus limites. Não conseguia esconder-se por muito tempo. Era sempre impiedosamente derrotado. E em seu sono, a cobrança da ex-amada: venha!

Após tantos anos de fuga, estaria seu cérebro projetando uma imagem fantasiosa da mulher que perturba sua existência há tantos anos? Não… chega! Alguém de seu passado resolveu assustá-lo. Um familiar de Sophia, talvez. Mas por que tanto tempo depois? Provavelmente, algum encontro fortuito com a velha que apresentava semelhanças com a parenta enterrada há décadas e a obscena ideia foi despertada. Quando a idosa senhora deixasse esse mundo – talvez a viagem tenha sido acelerada pelo infame – teria seu corpo sequestrado, enfiado num antigo vestido de Sophia, cuidadosamente esfarrapado para dar a impressão de ação de vermes, e trazido para a floresta. Abandonado num descampado onde, sabiam, seria encontrado por ele numa de suas caminhadas noturnas.

Quem poderia saber seu segredo? Sophia havia lhe traído? Não podia ser. Ela não o faria. Não! Asneiras! Tudo bobagem! Invencionices estúpidas de um tolo assustado! A semelhança da velha morta com Sophia é irreal, apenas um sentimento recalcado. Preciso acabar com esses devaneios. A pobre mulher se perdeu e não resistiu ao frio e à fome. Já não tinha idade para aguentar tais sofrimentos. Tudo o que podia fazer era conter o domínio do medo que lhe invadia e enterrar a pobre senhora. Aquietaria a alma da estranha para que não vagasse sem rumo.

Necessitava de sua pá e madeira para a confecção de uma cruz. Ela não apenas marcaria o local do túmulo como, principalmente, indicaria o caminho a ser percorrido pelo espírito liberto do flagelo de errar sem destino. Era isso o que tinha a fazer. O único elo entre este corpo que jazia na floresta e sua desgraçada Sophia era a sua mente a atormentá-lo. Foi à casa construir uma cruz com parte da lenha que possuía e buscar a pá. Esta seria a ferramenta que pacificaria uma alma… quem sabe três… a ação poderia interromper os malditos pesadelos, livrando-lhe de sua aflição e fornecer o descanso eterno necessitado por Sophia. Dormiria como um jovem novamente.

Voltou ao local em que havia deixado o corpo. Começou a remover as folhas e… nada. Não havia mais corpo. Não podia ser! Enganou-se de local. Não… não se enganou coisa nenhuma. Era ali! Essa floresta já estava completamente mapeada em sua cabeça. O que estava acontecendo?

— Chega disso!!! – gritou em desespero. — Apareça! Quem é você? Nenhuma resposta. Rodou por toda a madrugada à procura de vivos e mortos, mas não havia sinais de que qualquer outra pessoa, além dele mesmo. Quando retornou para casa a manhã já surgira há horas.

Exausto, não tinha forças para lutar contra o sono. Que Sophia viesse chamá-lo mais uma vez. Não se importaria. Os truques pregados por sua mente nesta madrugada já o prepararam para o funesto sonho. Venha, amada Sophia! Hoje sou eu quem a convido. Estou pronto para encará-la e mandá-la de volta ao inferno para onde quer me arrastar. Pois saiba que hoje vou responder-lhe: nunca! Jamais! Deixe-me em paz, mulher amaldiçoada!

Antes de apagar, notou que seu anel de noivado, lembrança da qual nunca teve coragem de se desfazer, havia sumido de seu dedo. No desespero por encontrar o corpo da velha entre as folhagens ele deve ter escapado. Agora não tinha condições de procurá-lo. Dormiu. Dessa vez não foi Sophia quem veio chamar-lhe para o penar infinito ou pelo menos não a jovem que foi sua noiva e abandonou a vida tão tragicamente. Era a velha da floresta quem sussurrava:

— Venha! Venha!

— Deus! – clamava ele em prantos, ajoelhado sobre a terra e escondendo o rosto entre os braços.

— Venha comigo! – insistia a envelhecida Sophia.

— Deixe-me, por favor! – respondia o homem cada vez mais assustado. Até que o silêncio tomou conta do ambiente. Por longos minutos ele não ouviu mais nada. Abaixou os braços mantidos à frente do rosto, mas seus olhos permaneceram fechados até certificar-se que estava só.

— Sophia! – chamou. Deu-me paz finalmente? – perguntou para si mesmo em pensamento. Foi abrindo os olhos devagar. A escuridão tomava tudo. O frio invadiu-lhe a alma e sentiu-se paralisado diante da imagem que se formava conforme sua visão acostumava-se à escuridão. Não conseguia fechar seus olhos. A velha surgiu novamente e agora era possível enxergar nitidamente na órbita encovada os olhos de Sophia que o miravam hipnóticos.

Acordou empapado de suor e lágrimas. Era preciso tomar uma providência. Precisava descobrir se aquela velha e sua ex-noiva eram a mesma pessoa. Partiria hoje, ainda, para a cidade onde Sophia foi enterrada. Antes, porém, procurou desesperadamente pelo anel perdido. Depois de pôr a casa abaixo, foi ao local do suposto encontro com o corpo e esquadrinhou toda a floresta. Nada. Não podia perder mais tempo. Era preciso empreender a viagem até o túmulo de Sophia.

Foram três dias e noites de caminhada e pesadelos em que os chamamentos da velha eram seguidos de silêncios e olhares que quase sugavam a alma do infeliz viajante. Enfim chegou ao cemitério de sua antiga cidade. A tarde caía. Sondou o coveiro sobre o túmulo que desejava visitar, inventou que estava de passagem por lá e resolvera visitar o cemitério para homenagear uma velha amiga depositando flores em sua sepultura. Pretendia colher informações sobre o local para invadi-lo em hora mais apropriada e profanar a tumba em busca de explicações.

Soube por intermédio do homem que a administração da cidade havia construído um novo e maior cemitério numa região mais afastada do centro e que as ossadas do cemitério desativado eram encaminhadas às famílias, quando encontradas. Em casos de não reclamação dos restos mortais, estes eram despachados e depositados numa mesma vala comum. O coveiro perguntou ao viajante se tinha ideia sobre o local do túmulo de sua amiga. Ao receber resposta positiva, o empregado do cemitério que cuidava da transferência entre o antigo e o novo estabelecimento mortuário convidou o estranho para juntos verificarem se a amiga havia sido entregue à família ou migrado para a cova conjunta.

Chegando ao túmulo de Sophia, a agradável surpresa. Seus familiares não haviam sido localizados e, coincidentemente, ela seria desenterrada hoje e partiria numa nova leva de restos mortais. Até que fossem levados à nova morada, era possível requisitar o que sobrou. Eram transportados em urnas identificadas por nome. O coveiro convidou o homem a acompanhar a remoção da amiga. Seguiu-se, então, o desenterrar do caixão de Sophia. Longos minutos que poderiam por fim ao mistério e aquietar ou, na pior das hipóteses, atormentar ainda mais o aflito. A escavação havia terminado. O sujo e cansado coveiro precisava de uma pausa antes de erguer o caixão. Perguntou ao viajante se desejava que abrisse o caixão antes do intervalo. Respondeu negativamente. Ele aguardaria até que o funcionário voltasse. Enquanto isso passearia pelo cemitério. Talvez reconhecesse outros amigos. Após o afastamento do escavador de túmulos e tendo a certeza de estar só, encheu-se de coragem para enfrentar o porvir. Desceu à sepultura para conferir o conteúdo do ataúde. A madeira já apodrecida pelo tempo desmanchava-se ao seu toque.

Finalmente, não sem algum trabalho, abriria a tampa de madeira tão morta quanto o que deveria conter, pensou. A resposta estava próxima. Que Sophia encontraria? Abriu… apenas restos de ossos em tons de sépia, vestígios de trapos do que um dia cobriu o corpo de sua noiva. Um alívio. Embora não fosse a visão que gostaria de guardar daquela que um dia despertou nele o melhor dos sentimentos (do qual, hoje, já nem se lembrava o nome). Melhor assim. Antes isso que encontrar uma ainda jovem ou mesmo uma envelhecida Sophia. Parecia que essa parte de sua vida, causa de décadas de tormento, chegava ao fim.

— Fiquemos em paz, doce Sophia!

Saiu da cova. Queria partir antes da chegada do coveiro. Uma última olhada para se certificar que sua mente não mais o traía. Sim… somente vestígios do passado. Um objeto, porém, chamou-lhe a atenção. Naquilo que teria sido a mão esquerda de Sophia, algo sólido num tom acobreado. Sim, é óbvio, o anel de compromisso. Exatamente como o que perdeu na floresta. Os anéis possuíam nomes em sua parte interna: o dela levava gravado o nome do amado enquanto o seu, usado até a pouco tempo, continha o nome de Sophia.

— Mas… o que é aquilo? Não… a loucura volta a rondar-me? São dois os anéis no caixão? Voltou à cova para entender o que se passava. Sim, eram dois anéis idênticos, a princípio.

Tremendo, tomou os objetos em suas mãos sem se importar com o desfarelar do que um dia foram os dedos que lhe tocaram o rosto. Ainda poderia haver uma explicação possível.

O primeiro anel… pôde reconhecer um nome, embora com certa dificuldade, sobre o qual não pensava e há trinta anos sequer ouvia, o seu próprio. Aquele que colocou nos dedos ainda carnais da mulher com a qual deveria ter dividido o leito. O segundo anel estava menos afetado pelo tempo. Por que carregava um segundo anel? O que lhe seria revelado pelo objeto?

— Não! Não! Não é verdade, não pode ser real! O meu anel! Como veio parar junto aos restos mortais? Sophia! Sophia!

Era a inscrição do maldito anel que esteve em seus dedos por décadas, com as reconhecíveis ranhuras causadas pela lida diária.

— Por que, Sophia? Por que, meu amor? Por que fui tão fraco? Não pude cumprir nosso compromisso fatal. Abandonar a vida em protesto ao impedimento de nosso amor. Dar uma dura lição nas famílias que oprimiam nossos desejos. A covardia não me permitiu tomar do veneno que nos uniria para sempre.

E, o imperdoável… a vergonha por não tê-la impedido. O horror ante a visão do veneno que lhe queimava por dentro, seu rosto desfigurado pela dolorosa agonia. E, acima de tudo, o desespero ao ouvi-la numa suplicante e quase extinta voz:

— Venha! Venha, meu amor! Não me deixe sozinha!

— Me perdoe, Sophia! Me perdoe, meu amor.

Ao voltar do intervalo o coveiro não viu o homem pelas redondezas. Teria partido? Desinteressou-se pelos restos mortais da amiga? Ora, e que espécie de gente tem algum prazer com a mórbida visão do seu próprio futuro? Ao aproximar-se da cova, no entanto, viu o homem caído nela. Desceu para tentar ajudá-lo.

— Senhor! Senhor! O que aconteceu? Sem respostas e sentindo o corpo frio do homem, virou-lhe com a face para cima. O que viu foi um rosto retorcido pelo sofrimento. Sem pulsação. O coração deve ter lhe pregado uma peça. Morto num cemitério e caído numa cova. Mas… agora notava… não era o único corpo. Havia uma senhora de cabelos embranquecidos dentro do apodrecido caixão. Os restos mortais que deveriam estar ali depositados não estavam em nenhum lugar. Pertenceriam a uma quadrilha de profanadores de túmulos? Alguma desavença entre o grupo fez com que dois dos comparsas fossem mortos e abandonados no local do crime? Estranho… estão de mãos dadas… os anéis nos dedos de ambos são semelhantes. E qual seria o motivo do sorriso no rosto da mulher?

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Dias de Júlia

Dia 1

— Quem são?
Foi o que pensou Júlia ao acordar sem entender bem o que acontecia. Umas pessoas em volta…

Alguém explicou a origem de sua confusão: efeito da anestesia geral. Acabara de passar por um procedimento cirúrgico. Estava tudo bem, dizia o chefe da equipe que a operou. Informou também que o local onde estava era a sala de recuperação do centro de cirurgia e que logo seguiria para o quarto. Ele já havia conversado com a mãe e o pai da paciente sobre a operação exitosa. Seguindo nas explicações, avisou à Júlia sobre seus sinais estarem sendo monitorados e que o tubo entrando pelo nariz era uma sonda nasogástrica. Ela drenaria o que o seu corpo, por enquanto, não poderia absorver e nem expelir por outras vias. O outro dreno, saindo do seu abdômen – parecia uma pera – chamava-se dreno Blake e fazia a sucção dos líquidos do pós-operatório. Perguntada se sentia alguma dor ou desconforto, Júlia balançou a mão num mais ou menos e disse:
— Garganta… seca – foi só o que ela conseguiu balbuciar. Ouviu o médico dizer que isso era normal, efeito colateral da anestesia. O cirurgião confortou a recém operada: a administração intravenosa do medicamento para a dor já estava sendo providenciada, assim como a descida para o quarto.

Agora a cabeça de Júlia colava os cacos, as coisas se encaixavam e ela reentendia a situação.
— A dor na barriga desde sexta… a operação… que merda! É por isso que eu tô aqui. Os bofes – intestinos – pra fora, o nó nas tripas… já acabou então. Quero água – pensou.
— Quero água – sussurrou.
O médico avisou que no momento não seria possível. Ela desceria agora com o maqueiro e a enfermeira até o quarto e ele passaria para vê-la no dia seguinte. Aconselhou a sua paciente que descansasse.
— Vão tirar esse tubo do meu nariz? – falou com a voz nasalada e fraca.
O médico respondeu que por enquanto não. Explicou novamente a função do instrumento: ajudar o corpo de Júlia a se desfazer do que não podia expelir por outras vias. Assim que o organismo estivesse limpo e não houvesse mais o que limpar, a sonda seria retirada.

A paciente se impacientou e deu um gemidinho de insatisfação. Disse para si: — Merda!
Na descida viu os pais. Sentiu-se protegida. Chegaram perto avisando sobre suas presenças e afirmando que amavam a filha. Foram juntos até o quarto, ela na maca, obviamente.

A enfermeira passou algumas instruções: durante um tempo passaria em dieta zero. Não
poderia beber ou comer nada. Assim que fosse verificada progressão, os alimentos seriam inseridos. Primeiro os líquidos, até chegar nos sólidos. O soro, que já estava sendo colocado, aliviaria as sensações de sede e fome.

Júlia voltou aos seus pensamentos. — Que saco! Tô cheia de sede. E esse tubo! Tá
incomodando na garganta. Quero tirar isso! E, embora incomodada com a sonda, uma
preguicinha foi se instalando. Foi raptada pelo sono.

Acordou umas três horas depois com a auxiliar de enfermagem vindo colher seus sinais vitais, medir sua pressão… sentiu frio. — Tá gelado – disse baixinho, com a sonda atrapalhando as palavras. A profissional se prontificou a abaixar o ar.

— Abaixar o ar… isso quer dizer aumentar ou diminuir a temperatura? – a dúvida foi apenas imaginada, não quis forçar a garganta atravessada pela sonda.
Se percebeu presa por tubos ligados ao braço por uma agulha.

— Ah, é o acesso – pensou ao lembrar o nome de algo com que já estava familiarizada ao ser plugada no soro durante o vai e vem ao hospital nos últimos dias. Numa poltrona, a mãe, que despertou de um leve cochilo, perguntou como a filha se sentia. Recebeu um sinal de positivo da mão meio molenga. Explicou que o pai precisou ir pra casa porque o plano só dava direito a um acompanhante. Ele deixou um beijo e o lembrete do amor que sentia por ela. Estaria cedo no hospital, assim que o horário de visitas iniciasse e revezaria com a mãe a função de acompanhante nos dias seguintes.

Júlia ouvia a voz da mãe se afastando. Foi derrubada pelo sono que veio buscá-la para um novo passeio.

Dia 2

A enfermeira do plantão entrou no quarto para trocar o soro, verificar os batimentos cardíacos, medir a pressão e a temperatura de Júlia. Ela acordou ainda um pouco desorientada, mas logo reconheceu sua situação e o lugar em que se encontrava. Recebeu passivamente os cuidados e as expressões carinhosas como um “bom dia, princesa”, não sem um pensamento crítico, no entanto.

— Essas expressões não combinam comigo… nem com ela. E princesa é o cacete! Odeio
monarquia! Mas, paciente ao quadrado, não pronunciou sua pequena revolta, até mesmo porque a sonda que engolia sua garganta a censurava.

Ao ouvir tosses, Júlia enfim notou que não era a única pessoa a se recuperar no quarto.
Percebendo a cara de curiosidade da filha, a mãe da jovem operada disse o que sabia, a
nonagenária da cama ao lado estava com pneumonia. Já era seu segundo dia hospitalizada e uma cuidadora lhe fazia companhia. Como havia uma cortina entre as camas, a curiosidade persistiu. Embora agora conhecesse a história que levou a mulher da tosse ao hospital, faltava à recém operada associar um rosto à velhinha. E visual como era, acrescentou mais uma angústia às várias sensações pelas quais vinha passando desde as primeiras dores abdominais.

Pela manhã, mais soro, analgésico para a dor, um controlador de náuseas e anticoagulante para a prevenção de trombose.
— Caralho, quanto remédio! Fios pra todos os lados. Tô parecendo um PC com seus periféricos.
Um PC que deu pau. Me tirem essa sonda da garganta, por favor! – gesticulou o pedido e
recebeu mais uma vez a explicação que já ia memorizando e odiando: blá, blá blá …. organismo… blá, blá, blá… expelir… blá, blá, blá, blá.
— Saco!

O primeiro banho pós-internação foi na cama mesmo. Sabonete e gazes molhadas. A
escovação dos dentes foi feita com cuidado, pouquíssimo creme dental e água num copo para enxaguar a boca. Como estava em dieta zero, não podia engolir nada.

O pai chegou, fez carinhos na filha, tentou distraí-la conversando com ela e com a companheira que passou a noite no hospital. No resto do longo dia: TV, sono, auferições, remédios…

Dia 3

O cirurgião veio pela manhã. Perguntou como se sentia e o sinal de mais ou menos se repetiu. Era o raio da sonda. A mãe e o pai de Júlia eram solidários ao incômodo da filha e insistiam com o médico que ela não aguentava mais aquele tubo. Mas a retirada foi adiada novamente.
— Não aguento mais! – fraquejou a paciente, logo consolada e acarinhada pela família.
E mais uma vez: soro-auferição-banho-analgésico-tv-sono-soro-auferição…
Pode-se mudar o local e mesmo as tarefas, mas a rotina é uma detetive que não se pode
despistar; implacável.
— Só me resta dormir. Preciso fugir da sonda. Preciso fugir da sonda. Preciso fugir… da sonda… fugir…

Dia 4

— É sério? – disse com a voz fraca. Vai tirar mesmo? Agora?
Sim, o médico tirou a indesejável sonda nasogástrica. Júlia chegou a dar uma choradinha
emocionada. O cateter urinário também foi removido, o xixi seria feito diretamente no vaso sanitário.
— Que saudade disso! E não era só: começaria uma dieta líquida. Água, gelatina bem molenga, caldo de legumes (uma horrorosa água de batata odiada pela paciente, quase desejou o retorno da dieta zero depois da ingestão de algo tão insosso). Uma evolução. Podendo, e devendo, se levantar da cama, pôde usar o chuveiro. Arrastando o suporte para soro e amparada pela mãe, foi ao banheiro. De passagem, viu a idosa pneumônica pela primeira vez. Foi cumprimentada por ela e pelo filho que substituía, naquele momento, a cuidadora.

Na volta do banheiro, chamaram a enfermeira para trocar o curativo. Era preciso limpar e cobrir a cicatriz de uns 20 centímetros começando um pouco acima do umbigo e que desviava deste, terminando no baixo ventre.
— Assim que for possível, preciso transformar essa cicatriz-lagarta numa linda e tatuada
borboleta colorida – pensou a jovem operada.

Foi dia de visita. Recebeu as avós. Uma estava visitando parentes na cidade e soube da
operação. Trouxe um presentinho e agrados de vó. A outra, que vivia na mesma cidade da neta, trouxe os carinhos de sempre. Muito bem recebidos. Veio também uma ex-professora, amiga da família além de tios e tias fofinhas (Tears for Fears?)
Mais tarde: TV-soro-celular-almoço líquido-sono… rotina… chaaaata. Saudade dos passeios de bicicleta.

Dia 5

Uma nova visita do médico e a liberação da dieta semi líquida: alimentos batidos no
liquidificador.
— Parece que as alterações daqui pra frente serão apenas alimentares – provocou Júlia. O
cirurgião riu e disse que esperava que sim, já que o organismo da paciente estava agindo como esperado e isso era um bom sinal. Se tudo corresse assim, estaria logo liberada. Perguntou se ela já estava andando e se havia evacuado.
— Ainda não – respondeu a moça ansiosa e esperançosa por sair o quanto antes daquele lugar tão importante para a sua vida quanto tedioso. Era preciso caminhar e quando evacuasse deixaria o hospital, enfim. Dali por diante, o cocô ocuparia seus pensamentos.
Que o intestino fizesse sua parte.

Achou que era hora de testar o órgão e tentar uma ida ao banheiro. Foi com a ajuda do pai. Passou novamente pela idosa que sorriu à sua passagem. Júlia estava temerosa de arrebentar os pontos, mas fez força mesmo assim.
— Nada. Acho que tô com vontade, mas não sai – disse um pouco suada. Voltou pra cama.
— Vamos andar, pai. E foram pelo corredor do hospital.

Dia 6

— Merda de cocô que não sai e me deixa presa aqui!
A evacuação não vinha. Parecia que sua estada no hospital se prolongaria. A jovem tentou negociar: — Não pode me dar alta? Prometo que vou evacuar em casa! O médico riu e explicou que seu chefe era rigoroso e só liberaria a paciente quando o intestino provasse seu funcionamento. Júlia ficou meio… enfezada.

O dia passou modorrento como vinha sendo rotineiramente. Um desânimo daquele de largar-se, esquecer-se da própria existência se abateu na, até então, impaciente hospitalizada. A ponto de numa das costumeiras coletas de sangue realizadas, Júlia sequer esboçar reação quando a enfermeira não conseguiu encontrar sua veia. A profissional girava a agulha no braço da internada e ela nem reagia.
— É assim mesmo – disse. Mostrou os vários roxos espalhados pelos braços após diversos
dias ali. O pai, somatizando, quase desmaiou com a movimentação da agulha no braço da garota. Precisou desviar o olhar para não perder todo o sangue de seu corpo. Admirava a coragem da filha pelos vários dias de sofrimento. Mesmo nos naturais momentos de fraqueza, quando o corpo parecia opor certa resistência ao enfrentamento das dores. A “filhusca” lhe enchia de orgulho, amor e sofrimento.

A mãe e o pai de Júlia experimentaram também momentos de solidão. Quem não
permanecesse como acompanhante no dia prolongava a visita ao máximo. Até extrapolavam o horário apostando na distração dos funcionários. Tudo para estar ali com a filha, acompanhar todos os desdobramentos e não precisar voltar para a casa vazia e silenciosa. Até as três cachorras tão presentes com seus latidos e pedidos de atenção estavam quietas. Dava a impressão de que sabiam de tudo e também sentiam falta da “irmã humana”.

Dia 7

Mensagem de voz:
— Pai, tenho duas notícias pra você: uma boa e outra ruim. Qual quer ouvir primeiro? Ele escolheu a ruim.
— A ruim é que você perdeu. A boa é que consegui cagar!
Foi metade do que estava acostumada a fazer, mas naquele momento valeu por quilos.
As outras mensagens trocadas entre os três, com direito a emojis de cocôs sorridentes, foram de explosão de alegria. O cirurgião já havia passado por lá e dado alta à paciente. Ela pediu umas roupas ao pai. Bastava, agora, aguardar até que a última bateria de remédios seguisse caminho por suas veias e depois ela é que caminharia para fora do hospital. Apenas uma força de expressão, já que seria conduzida de cadeira de rodas até a saída. Procedimento padrão.

Dane-se, estava feliz. Começou a pensar em sua vida dali pra frente. Com os cuidados que
precisaria ter, mas principalmente com o que faria da vida. Quais as perspectivas? Abriu o site da universidade para ver a data da prova e o valor da inscrição. Se deparou com uma nova listagem de aprovados no vestibular anterior. Clicou meio sem saber por quê. Um pingo de curiosidade, talvez. Janas, Janaínas, Joanas, Joões, Josés, Júlias… Júlia…
— Mãe! Passei!

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Passarada

Macuco não sabe quantas vezes já foi ao morro para os “playbas”. Gostam da viagem, mas não querem voar em busca do prazer. Preferem a comodidade do controle remoto. E se não utilizassem as asas de Macuco, serviriam-se de outra ave disposta a arriscar suas penas.

O movimento no ninho era tranquilo. Pintassilgo e Pintarroxo cuidavam das vendas, o primeiro responsável pelo alpiste e o segundo pelo painço branco. Macuco sempre pousava por ali e já era conhecido por todos. Cruzou com Bicudo, seu colega de voo, que acabava de adquirir meia dúzia de trouxinhas de painço de dez.

— Vai ter festa no poleiro, hein!? – brincou o apressado Coleiro, que também chegava ao ninho, vendo Bicudo carregado. E ao ser avistado por Pintarroxo foi logo advertido:
— Se não veio pagar o que deve, então some, Coleiro! Tô bolado contigo, já!
— Pô, Pinta, ajuda com meu galho! Arruma uns painços pr’eu vender. Juro que te pago!
— Vou é te rachar o bico! Some! Some, porra!!! – Coleiro foi cantar noutra freguesia.
— Fala, Pintas!!! Tô na área – cumprimentou Macuco.
— Fala, Macuco! – gorjearam os dois vapores em uníssono.
— Olha só, esse alpistezinho aqui é de deixar desarvorado, hein! – ofereceu Pintassilgo.
— Já é! Por isso que só venho aqui, tem ninho empurrando palha pra geral. Dá dois de
cinco. E separa 3 painços de dez pra mim, Roxo! É pros playba meterem o bico lá embaixo.

Macuco nem bem havia alçado seu voo de volta e o atendimento que seguia
normalmente foi interrompido por uma estranha revoada. Tico-tico batia fortemente as asas morro acima e emitia um angustioso chamado: — os homens vêm aí! os homens vêm aí!

O ninho ficou alvoroçado. Rouxinol e Patativa, que aguardavam na fila, foram enxotados
dali: — Xô, passarinhada! Os homens vêm aí!!! Os homens vêm aí!!! Xô, xô…
Todo o morro entrou em desespero. Os homens planejavam engaiolar alguns, mas não
se importavam em abater quantos fossem. Penas iriam voar!

Rolinha desapareceu debaixo das asas de sua mãe enquanto Asa Branca fugia dos
homens em seu encalço. — Vai, Juriti! Sai da frente – trilou Sanhaço. Colibri se abrigou na
primeira árvore que viu. Ao olhar assustado de Trigueiro, bradou: — Anda!!! Fecha essas
folhagens! Os homens vêm aí!!! Há algumas árvores dali, Saíra alertava seu companheiro com passagens pela gaiola: — Se esconde, Bem-te-vi! Os homens vêm aí!!! Os homens vêm aí!!!

Quase duas horas de revoada… Uirapuru, Tuju, Inhambu e Quero-quero foram
recolhidos à gaiola. Menos sorte para Utiariti, Chega-e-vira, Engole-vento e Tiê-sangue. Até Sem-fim, após vários confrontos, dessa vez não escapou. Viúva estava inconsolável. Macuco escapou. Contou com a generosidade alheia ao se aninhar numa das árvores não invadidas.

A passarada costumava cantar àquela hora, porém… nem um pio. Bicos calados.

 

(Originalmente o conto foi um dos selecionados no concurso “CEAT 50 anos: textos e desenhos para a Revista Philos”. Os textos deveriam ser inspirados na obra de Chico Buarque. Meu conto, inspirado em “Passaredo”, integraria a revista Philos nº 38 em homenagem a Chico Buarque, com lançamento na Festa Literária de Santa Teresa de 2019 (FLIST/2019). Por um erro da organização do concurso, o conto foi trocado por outro e a autoria erroneamente creditada a mim. Por uma incrível coincidência, esse outro conto foi escrito pela minha companheira, que também participou do concurso e se chamava “Passarada de Erês” – na revista, foi nomeado como Passarada, apenas e, como dito anteriormente, atribuído a mim. Pedimos que a equipe da Philos corrigisse o erro e a revista se prontificou a publicar os dois contos na edição seguinte, o que não aconteceu. Portanto, considero minha Passarada livre para voar).

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Ela

O mar da vida andou lhe aplicando vários caixotes. Mas ela não se deixou afogar, emergiu da água e se pôs de pé na areia. Sem a proteção dos chinelos arrebentados e com os pés em brasa, correu aos pulos da praia que a repelia.

Sob a proteção do abrigo da parada, foi contando quantos ônibus ignoraram seus sinais para que parassem. Ao finalmente embarcar no transporte cuja lotação máxima já havia sido em muito ultrapassada, passou toda a viagem como um adesivo colado à porta de entrada. A descida foi um alívio, embora o motorista tenha ignorado o soar da campainha fazendo-a caminhar por mais algumas centenas de metros até a sua casa.

Agora entre ela e sua cama havia um portão, um quintal, a porta de entrada e uma sala. Procurou as chaves… perdeu. Pulou o portão e caiu em cima das duas cachorras provocando uma briga entre elas. Tentou acariciá-las, mas teve que se afastar do tumulto canino, a cabeça latejava uma dor. “As meninas vão se acalmar”, pensou. Foi em busca da chave reserva escondida no quintal. Após intensa e cansativa procura, lembrou que não devolveu a chave ao seu esconderijo após usá-la na última vez. Chegou a se ofuscar – em pensamento – com o objeto brilhando em cima da mesa da sala. Repulou o portão, se desviando da algazarra das cachorras e foi á casa do ex, em bairro vizinho. Ele ainda possuía uma cópia da chave. Esperou por quase duas horas e ainda precisou aguentar uma briga de casal ocasionada pela dificuldade demonstrada por seu ex-amor em explicar à atual namorada porque ainda podia acessar a casa alheia. Já estava até dando saudades da balbúrdia de suas “cãs”, como gostava de chamar as tão amadas criaturinhas.

Com os ouvidos doendo e com a chave em mãos, voltou pra casa, pulou o muro, redescobriu que a garganta das cachorras era potência pura, mas abriu a porta. Cansada, esqueceu da cachorra que vivia dentro de casa – foi separada das outras por incompatibilidade de convivência. Tropeçou na bichinha e caiu. Agora mais uma cachorra latia. Foi descansar um pouco em seu quarto, tentando ficar alheia à festa canina para a qual não foi convidada. Pediu silêncio e, muitos “shhhhhhh!!!” depois, resolveu levantar da cama e escrever um pouco. O desemprego estava garantindo muita escrita. Ligou o computador, ou melhor, tentou ligar. O sistema não entrava. Pegou caneta e caderno, mas a esferográfica de tão seca rasgou uma página. Foi testando as canetas que achou e, incrivelmente, nenhuma colaborou. Sentiu-se ilhada. Sem computador, sem internet, telefone fixo sem funcionar há meses, o celular desligado por falta de pagamento… bem… as histórias não iriam embora, estavam em sua cabeça, eram sua própria vida. Chorou, respirou fundo e pensou em desistir. Mas o telefone, que despertou de sua hibernação, chacoalhou sua alma. Seria a maré da vida mudando?

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Quando tudo se acabar… é quarta-feira

O vento varreu tudo: árvores como se fossem confetes, telhados como se fossem purpurina. E a cidade se reconfigurou, transformando-se num quadro surrealista, numa fantasia de detritos.

O que nasceu horizontal se verticalizou, o que surgiu de pé tombou. As bicas das nuvens perderam as carrapetas, os rios serpentearam por novas avenidas, o terreno úmido escancarou sua fome e engoliu tudo como se devorasse a sobremesa. Durante horas a cidade parou e prestou atenção à natureza que botou seu bloco nas ruas e desfilou triunfal.

As sirenes cantavam embaladas pelas batidas do trovão, a ventania levou 10 como comissão de frente, o tornado girou tal qual ala de baianas, os carros nas ruas eram pura alegoria, a chuva fechou o desfile e a cidade. E na quarta-feira de sol, a folia acabou.

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O que era sonho vira terra

O país não era mais viável, a cidade nada acolhedora e o bairro fechava o cerco na ameaça a sua existência. Estava incomunicável, fisicamente machucada e quase morta mentalmente.

— Não dá mais, não dá mais! – era o que gritava em silêncio o seu desespero.

Fazia parte de algo que deveria ser compartilhado por qualquer pessoa, mas estranhamente, parecia sonho de poucos. Queria pensar, falar, duvidar, gozar, viver… quando e por que tudo isso passou a ser inaceitável? Impossível acreditar na passividade com que muitos permitiram que lhes calassem a vida (em vida), aceitando a triste escolha de apenas existir.

Por ter rejeitado a ideia de se deixar contaminar pelo inaceitável, renegar o suicídio diário assistido, agora se escondia de quem desejava enterrar seus sonhos e seu corpo numa mesma vala comum. Era insuportável pensar sobre o destino de companheiras e companheiros perdidos, cobertos de ódio e terra após não cederem a um caminho deplorável. Mulheres e homens com quem dividiu a vontade e a necessidade de ser. E foram… e se foram…

Há dias esperava por notícias de alguém. Qualquer uma que alimentasse sua esperança de sabê-las e sabê-los bem. Mais que isso, ansiava ouvir as vozes que dariam fim a sua angustiante solidão. No entanto, o silêncio foi a única resposta recebida. Aos encontros previamente marcados, ninguém jamais voltou a comparecer. Locais que, então, deveriam ser evitados para sua própria segurança. — Chega! Era preciso fugir do medo, escapar dali, realimentar sua alma. Permanecer escondida e enterrada em si mesma a estava sufocando. Tinha que refazer contatos, buscar as pessoas. Sem as relações sociais perdia o chão, virava pó, rio em que não se pode banhar.

Decidiu não enlouquecer ou desenlouquecer, já nem sabia. Iria embora. O ferrão desse lugar não continuaria a envenená-la. Não seria tragada pela terra até as entranhas de um bicho cada vez mais faminto e engolindo quem irradiava vida. A escuridão do estômago monstruoso feito de dor e não se alimentaria dela como fez com as pessoas-diamante, a turma brilhante com quem ousou sonhar novos e belos caminhos.

Tentaria contatar a família que um dia precisou esquecer e por quem precisou ser esquecida; pediria ajuda para fugir da morte certa. E permaneceria longe até ser novamente seguro voltar ao lugar no mundo que agora lhe negavam, assim como faziam a tantos outros desterrados (na própria terra ou já fora dela). Precisaria ter cuidado para não cair em alguma armadilha, sentia-se como uma peça de xadrez acuada, posta em xeque e com poucos movimentos disponíveis. Cansaço e fome deixavam-na fraca, sem condições para fugir de emboscadas ou resistir a um cerco. O dinheiro era insuficiente para alimentar-se bem e com regularidade, a energia já estava cortada, não havia como pagar o aluguel do mês seguinte… a hora de tentar seus últimos movimentos havia chegado.

Se fosse necessário se defender, havia um fundo falso na pequena mala. Carregava também algumas peças de roupa, documentos de alguém que nunca foi, uma goiaba, um Drummond. Na página marcada por uma dobradura do canto superior – uma orelha – o seguinte trecho sublinhado:

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! vai’ inundando tudo…
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos —— voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Abriu a porta, desceu três andares de escada, saiu pela portaria do pequeno prédio, tomou as ruas e se foi. Nunca chegou, não encontrou com quem compartilhou por tantas vezes de seus sonhos e pesadelos, jamais se alimentou novamente com um fruto da terra…

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